Criando filhos em tempos de violência

Claro que os adolescentes não foram feitos para ficar quietos, presos em casa. Mas o que fazer quando a realidade lá fora é cada vez mais perigosa?


É difícil argumentar com os pais, em nome do ideal de autonomia, quando eles estão tão assustados com a violência que bate à porta de casa e consentem em abrir mão da própria liberdade a que têm direito por causa da insegurança nas ruas.
O drama das famílias hoje é como educar os filhos num mundo tão violento. Ter que ensinar a ter medo sem deixar paranóico, cuidar sem controlar demais e vigiar sem tolher a privacidade.
Temor.
Aliás, é esse temor da violência que faz com que a classe média e alta, cada vez mais, tire os filhos das ruas, dos transportes coletivos, da convivência com a diversidade, da escola pública.
Diretor-executivo em São Paulo do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne, faz referência a uma democratização do medo, que leva todos a se sentirem reféns da violência.
“Isso impacta o comportamento das famílias, que vão desocupando os espaços públicos, colocando para dentro dos condomínios tudo o que era usado por todos. E botam alarme, sobem muros, blindam os carros”, cita ele.
“Viver já é um risco. Temos que orientar nossos filhos para que saibam se cuidar. Mas não podemos criar estratégias de proteção que levem a um individualismo fóbico e à intolerância com relação aos demais”.
O medo generalizado da violência, diz ela, está paralisando até quem nunca foi vítima de criminosos. “Não podemos mobilizar nossas vidas nem criar os filhos numa redoma”.
Sem paranóia e intolerância

Pesquisadora do tema violência, a socióloga e professora da Ufes, Márcia Rodrigues, 44 anos, nunca foi vítima de um criminoso. Mas o filho dela sim. Leonardo foi assaltado quatro anos atrás, quando tinha apenas 6 anos de idade. O assaltante era outro menino, pouco mais velho que ele. “Ele estava na calçada, na frente do prédio, no Centro de Vitória, esperando a Kombi do transporte escolar, quando o menino passou correndo e arrancou sua mochila”, conta Márcia. Ela lembra a reação do filho depois do acontecimento. “Fui buscá-lo na escola e vi que ele estava nervoso, agitado e trazia alguns materiais enrolados na camisa. Disse que era para devolver e fomos comprar o material todo novo”. Márcia precisou conversar muito com o menino. “Expliquei que o assaltante era outra criança, que deveria estar na escola como ele. Disse que a sociedade em que vivemos está passando por esse momento, mas que a rotina dele não iria mudar por causa disso. Não quis deixá-lo paranóico, nem gerar intolerância”, comenta ela. Leonardo soube superar o problema sem traumas. Mas a mãe admite que o cerca de cuidados. “Ele só pega ônibus eventualmente”, diz.
“Falei que o seqüestro havia sido uma encenação”

Medo
Quando Maira chega em casa, a primeira coisa que faz é trancar as portas e ligar o alarme. “Tenho medo de alguém entrar e me seqüestrar”, diz a menina, de 11 anos. Tanta angústia tem uma explicação. Quando tinha 5 anos, Maira foi seqüestrada junto com os pais e ficou quase 24h no cativeiro, em poder dos bandidos, no Rio de Janeiro, onde morava. Na época, a mãe quis evitar um trauma e disse que tudo não passara de um filme. “Disse que era tudo encenação”, contou a contadora Mirtes Campanharo Gallon, 45. Atualmente morando em Vila Velha com Maira e João, de 3 anos, Mirtes admite que não tem sossego. ” Sei que posso passar insegurança para meus filhos, mas quero que conheçam os perigos e saibam se proteger”.


Superproteção não é a melhor solução


A tese de que os pais devem criar os filhos para o mundo se perde um pouco numa realidade cada vez mais violenta. A tendência hoje é querer adiar certas liberdades, a fim de evitar que eles fiquem expostos a perigos reais e concretos.Com isso, as crianças, principalmente as de famílias de classe média e alta, perdem vivências importantes e chegam à adolescência sem saber pegar um ônibus ou andar pelas ruas do bairro sozinhas.

É ilusão achar que é possível evitar todos os perigos prendendo os filhos dentro de casa ou vigiando cada passo deles do lado de fora. Mas os especialistas lembram que a superproteção e o supermonitoramento não são a melhor solução.
“Muitas vezes os pais superprotegem por culpa ou insegurança. Os filhos percebem isso e ficam com dificuldades de avaliar o mundo que os rodeia frente à imagem distorcida pela culpa ou insegurança de seus pais”, observa a psicanalista, psiquiatra e professora da Ufes, Tania Prates.
Ela diz que o entendimento da violência hoje faz parte da educação que os pais devem dar aos seus filhos. “Eles não podem crescer alheios ao seu meio, pois podem perder a capacidade de análise e compreensão, o que pode afetar sua capacidade de entendimento e de suas decisões”, explica.
Mas como dar liberdade aos filhos com tanta insegurança? “Com conhecimento profundo do que está acontecendo. Ensinando as noções de cidadania. Liberdade faz par com responsabilidade”, reforça a psicanalista.
O cuidado, portanto, é importante. Só não pode ser exagerado, sob o risco de até causar um efeito indesejado: o filho pode rejeitar a superproteção e furar o esquema de segurança imposto, expondo-se ainda mais.
“O sujeito vigiado, uma hora escapa da vigilância e não vai saber o que fazer por sua própria conta. Desde cedo as crianças precisam ser incentivada a tomar decisões e se responsabilizar pelos seus atos – é obvio que decisões concernentes ao seu universo próprio”, orienta Tania.

Obesidade e estresse
Os especialistas já começam a observar como o medo da violência torna crianças e adolescentes mais estressados e obesos. Uma pesquisa feita por um canal de TV apontou que os que vivem nas cidades são as mais estressados – brasileiros estão no topo. O psiquiatra Ryu Perini, do Hospital das Clínicas, confirma o quadro. “Eles têm acesso às informações. Os pais têm que conversar, mas sem apavorar”. A obesidade também tem relação com a violência. A conclusão é da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que mostrou que crianças que vivem em áreas inseguras têm quatro vezes mais probabilidade de serem obesas. Isso porque trocam brincadeiras ao ar livre por computador e TV. “Crianças têm que praticar esporte ou serem levadas para jogar bola e andar de bicicleta”, sugere a pediatra Josilaine Storch Fezer.

DEIXO OU NÃO DEIXO?
Entre os especialistas, não existe consenso: liberar ou não determinadas conquistas depende muito do próprio filho e do tipo de relação que ele tem com a família
Mas quais as dúvidas comuns de pais de adolescentes e verificar o que podem – e não podem – fazer hoje em dia na cidade
A psicopedagoga Penha Peterli afirma que, acima de tudo, os pais têm que estar seguros para deixar os filhos fazerem algo. “Se liberar cheio de angústia, a tendência é dar tudo errado”

ANDAR DE ÔNIBUS
Depende da idade do filho e do bairro onde vai circular. À noite, a maioria dos pais proíbe. Voltar de transporte público ou a pé do colégio não são consideradas atitudes de risco, se o jovem estiver em grupo

VIAJAR
Alguns pais proíbem se não for um adulto junto. A maioria só libera se conhecer o local e as companhias. Hoje crianças e adolescentes podem fazer viagens para outros Estados e até outros países com segurança

TER CELULAR
A dica é orientar os menores para que não usem o aparelho na rua, para evitar o roubo. Mas é importante colocar regras para o uso, pois uma criança que telefona muito para os pais mostra que só consegue decidir as coisas se for guiada e orientada por um adulto. Vale estabelecer um limite para o número de chamadas diárias

VOLTAR TARDE
Alguns pais costumam estipular horários fixos, como meia-noite ou 1h da manhã. Outros liberam de acordo com o evento da noite. Os psicólogos recomendam que o adolescente tenha sempre hora para chegar em casa, mesmo que esse horário seja combinado

INTERNET
É preciso colocar limites de tempo e de conteúdo. Adolescentes podem ficar até duas horas por dia na Internet. Crianças pequenas, apenas 1h30. Os pais devem manter o diálogo, orientar para que não conversem com estranhos. Vale adotar mecanismos de controle, bloqueando o acesso a sites com conteúdo impróprio. E assim como a tv, é claro que o uso do computador deve estar em lugar público da casa e não escondido. Coisas que você pode ensinar a seu filho para melhorar sua segurança

1. Estimule seus filhos a compartilhar as experiências da Internet deles com você. Desfrute da Internet com seus filhos. Conhecer a Internet é a melhor forma de ajudar seu filho a evitar suas perigosas armadilhas. Seu filho respeitará conselhos dados com conhecimento de causa, mas os rejeitará se ele perceber que você não conhece o assunto.
2. Ensine seus filhos a confiar em seus instintos. Se algo on-line os deixa nervosos, eles devem dizer isso a você.
3. Se seus filhos visitam salas de bate-papo, utilizam programas de mensagem instantânea, jogos on-line ou outras atividades na Internet que solicitam login e senhas para identificação, ajude-os a escolhê-lo e certifique-se de que ele não revele nenhuma informação pessoal.
4. Insista para que nunca divulguem seu endereço, número de telefone, escola onde estudam ou qualquer outra informação pessoal.
5. Ensine a diferença do que é bom e do que é ruim na Internet e compare com situações do mundo real.
6. Mostre como respeitar os demais, on-line. Certifique-se de que eles saibam que as regras de bom comportamento não mudam somente porque estão em uma máquina.
7. Insista para que eles respeitem a propriedade dos outros que estão on-line. Explique que realizar cópias ilegais do trabalho de outras pessoas (música, vídeos, jogos e outros programas) é roubo.
8. Diga que eles nunca devem marcar um encontro pessoal com amigos virtuais. Explique que os amigos on-line podem não ser quem dizem que são.
9. Ensine a eles que nem tudo o que lêem e vêem on-line é verdade. Estimule-os a perguntarem se não estão seguros.
10. Uma vez que já se tenha o acesso em luar público da casa, conforme a idade controle a atividade on-line dos seus filhos com software de Internet avançado. A proteção infantil pode filtrar conteúdo prejudicial, supervisionar os sites que seu filho visita e averiguar o que ele faz neles.

 ------------------------------------

Baseado em texto do Jornal A Gazeta e do site diganaoaerotizacaoinfantil.blogspot.com

Home · Humana e Espiritual Criando filhos em tempos de violência