| Educação Católica da América Latina
22-01-2009
328. A América latina e o Caribe vivem uma particular e delicada emergência educativa. Na verdade, as novas formas educacionais de nosso continente, impulsionadas para se adaptar às novas exigências que vão se criando com a mudança global, aparecem centradas prioritariamente na aquisição de conhecimentos e habilidades e denotam um claro reducionismo antropológico, visto que concebem a educação preponderantemente em função da produção, da competitividade e do mercado. Por outro lado, com freqüência, elas propiciam a inclusão de fatores contrários á vida, a família e a uma sã sexualidade. Desta forma, elas não manifestam os melhores valores do jovens nem seu espírito religioso; menos ainda ensinam-lhes os caminhos para superar a violência e se aproximar da felicidade, nem os ajudam a levar uma vida sóbria e adquirir aquelas atitudes, virtudes e costumes que tornariam estável o lar que estabelecessem, e que os converteriam em construtores solidários da paz e do futuro da sociedade190.
329. Diante desta situação, fortalecendo a estreita colaboração com os pais de família e pensando em uma educação de qualidade à que tem direito, sem distinção, todos os alunos e alunas de nossos povos, é necessário insistir no autêntico fim de toda escola. Ela é chamada a se transformar, antes de mais nada, em lugar privilegiado de formação e promoção integral, mediante a assimilação sistemática e crítica da cultura, fato que consegue mediante um encontro vivo e vital com o patrimônio cultural. Isto supõe que esse encontro se realize na escola em forma de elaboração, ou seja, confrontando e inserindo os valores perenes no contexto atual. Na realidade, a cultura, para ser educativa, deve se inserir nos problemas do tempo no qual se desenvolve a vida do jovem. Desta maneira, as diferentes disciplinas precisam se apresentar não só um saber por adquirir, mas valores por assimilar e verdades por descobrir.
330. Constitui uma responsabilidade estrita da escola, enquanto instituição educativa, destacar a dimensão ética e religiosa da cultura, precisamente com o objetivo de ativar o dinamismo espiritual do sujeito e de ajudá-lo a alcançar a liberdade ética que pressupõe e aperfeiçoa à psicológica.. Mas não se dá liberdade ética, a não ser na confrontação com os valores absolutos dos quais depende o sentido e o valor da vida do ser humano. Inclusive no âmbito da educação, manifesta-se a tendência a assumir a realidade como parâmetro dos valores, correndo dessa forma o perigo de responder a aspirações secundárias e superficiais, e de perder de vista as exigências mais profundas do mundo contemporâneo (E.C. 30). A educação, humaniza e personaliza o ser humano quando consegue que este desenvolva plenamente seu pensamento e sua liberdade, fazendo-o frutificar em hábitos de compreensão e em iniciativas de comunhão com a totalidade da ordem real. Desta maneira, o ser humano humaniza seu mundo, produz cultura, transforma a sociedade e constrói a história191.
6.4.6.1 Os centros educativos católicos
331. A missão primária da Igreja é anunciar o Evangelho de maneira tal que garanta a relação entre a fé e a vida tanto na pessoa individual como no contexto sócio-cultural em que as pessoas vivem, atuam e se relacionam entre si, Assim mediante a força do Evangelho, a Igreja procura “transformar os critérios de juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade que estão em contraste com a Palavra de Deus e o desígnio de salvação”192.
332. Portanto, quando falamos de uma educação cristã, entendemos que o mestre educa para um projeto de ser humano no qual habite Jesus Cristo com o poder transformador de sua vida nova. Existem muitos aspectos nos quais se educa e entre os quais consta o projeto educativo. Existem muitos valores, mas estes valores nunca estão sozinhos, sempre formam uma constelação ordenada, explícita ou implicitamente. Se a ordenação tem a Cristo como fundamento e fim, então esta educação está recapitulando tudo em Cristo e é uma verdadeira educação cristã; se não, pode falar de Cristo, mas corre o perigo de não ser cristã193.
333. Deste modo, é produzida uma identificação entre os dois aspectos. Isto significa que não se concebe a possibilidade de se anunciar o Evangelho sem que este ilumine, infunda alento e esperança e inspire soluções adequadas aos problemas da existência; muito menos que possa se pensar em uma verdadeira e plena promoção do ser humano sem abri-lo a Deus e anunciar-lhe Jesus Cristo194
334. Em suas escolas, a Igreja é chamada a promover uma educação centrada na pessoa humana que é capaz de viver na comunidade. Diante do fato de que muitos se encontram excluídos, a Igreja deverá estimular uma educação de qualidade para todos, formal e não-formal, especialmente para os mais pobres. Uma educação que ofereça ás crianças, aos jovens e aos adultos o encontro com os valores culturais do próprio país, descobrindo ou integrando neles a dimensão religiosa e transcendente. Para isso, necessitamos de uma pastoral da educação dinâmica e que acompanhe os processos educativos, que seja voz, que legitime e salvaguarde a liberdade de educação diante do Estado e o direito a uma educação de qualidade para os mais despossuídos.
335. Deste modo, estamos em condições de afirmar que no projeto educativo da escola católica, Cristo o Homem perfeito, é o fundamento em quem todos os valores humanos encontram sua plena realização e, a partir daí, sua unidade. Ele revela e promove o sentido novo da existência e a transforma, capacitando o homem e a mulher a viverem de maneira divina; ou seja, para pensar, querer e agir segundo o Evangelho, fazendo das bem-aventuranças a norma de suas vidas. Precisamente pela referência explícita e compartilhada por todos os membros da comunidade escolar, a visão cristã – ainda que em grau diverso, e respeitando a liberdade de consciência e religiosa dos não cristãos presentes nela - a educação é “católica”, pois os princípios evangélicos se convertem para ela em normas educativas, motivações interiores e, ao mesmo tempo, em metas finais. Este é o caráter especificamente católico da educação. Jesus Cristo, pois, eleva e enobrece a pessoa humana, dá valor a sua existência e constitui o perfeito exemplo de vida. Esta é a melhor notícia, proposta pelos centros de formação católica aos jovens195.
336. Portanto, a meta que a escola católica se propõe com relação às crianças e jovens, é a de conduzir ao encontro com Jesus Cristo vivo, Filho do Pai, irmão e amigo, Mestre e Pastor misericordioso, esperança, caminho, verdade e vida e, dessa forma, à vivência da aliança com Deus e com os homens. Faz isso colaborando na construção da personalidade dos alunos, tendo Cristo como referência no plano da mentalidade e da vida. Tal referência, ao se fazer progressivamente explícita e interiorizada, ajudará a ver a história com Cristo a vê, a julgar a vida como Ele faz, a escolher e amar como Ele, a cultivar a esperança como Ele nos ensina e a viver n’Ele a comunhão com o Pai e o Espírito Santo. Pela fecundidade misteriosa desta referência, a pessoa se constrói na unidade existencial, isto é, assume suas responsabilidades e procura o significado último de sua vida. Situada na Igreja, comunidade de cristãos, ela consegue com liberdade viver intensamente a fé, anunciá-la e celebrá-la com alegria na realidade de cada dia. Como conseqüência, amadurecem e parecem co-naturais as atitudes humanas que levam a se abrir sinceramente à verdade, a respeitar e amar as outras pessoas, a expressar sua própria liberdade na doação de si e no serviço aos demais para a transformação da sociedade.
337. A Escola católica é chamada a uma profunda renovação. Devemos resgatar a identidade católica de nossos centros educativos por meio de um impulso missionário corajoso e audaz, de modo que chegue a ser uma opção profética plasmada em uma pastoral da educação participativa. Tais projetos devem promover a formação integral da pessoa, tendo seu fundamento em Cristo, com identidade eclesial e cultural, e com excelência acadêmica. Além disso, há de gerar solidariedade e caridade para com os mais pobres. O acompanhamento dos processos educativos, a participação dos pais de família neles e a formação de docentes, são tarefas prioritárias da pastoral educativa.
338. Propõe-se que nas instituições católicas a educação na fé seja integral e transversal em todo o currículo, levando em consideração o processo de formação para encontrar a Cristo e para viver como discípulos e missionários e inserindo nela verdadeiros processos de iniciação cristã. Ao mesmo tempo, recomenda-se que a comunidade educativa (diretores, mestres, pessoal administrativo, alunos, pais de família, etc) enquanto autêntica comunidade eclesial e centro de evangelização, assuma seu papel de formadora de discípulos e missionários em todos seus estratos. Que, a partir dali, em comunhão com a comunidade cristã que é sua matriz, promova um serviço pastoral no setor em que se insere, especialmente aos jovens, à família, na catequese e na promoção humana dos mais pobres. Estes objetivos são essenciais nos processos de admissão de alunos, de suas famílias e na contratação dos docentes.
339. Um princípio irrenunciável para a Igreja é a liberdade de ensino. O amplo exercício do direito á educação, como condição para sua autêntica realização, reivindica por sua vez, a plena liberdade que deve gozar toda pessoa na escolha educação de seus filhos que considere mais adequada aos valores que eles mais estimam e que consideram indispensáveis. Pelo fato de haver dado a vida aos filhos, os pais assumiram a responsabilidade de oferecer a eles condições favoráveis para seu crescimento e a séria obrigação de educá-los. A sociedade precisa reconhecê-los como os primeiros e principais educadores. O dever da educação familiar, como primeira escola de virtudes sociais, é de tanta transcendência que, quando falta, dificilmente pode ser suprida. Este princípio é irrenunciável196.
340. Este direito intransferível, que implica uma obrigação e que expressa a liberdade da família na esfera da educação por seu significado e alcance precisa ser decididamente garantido pelo Estado. Por esta razão, o poder público, a quem compete a proteção e a defesa das liberdades dos cidadãos, atendendo à justiça distributiva, deve distribuir as ajudas públicas – que provêm dos impostos de todos os cidadãos – de tal maneira que a totalidade dos pais, independente de sua condição social, possam escolher, segundo sua consciência, em meio a uma pluralidade de projetos educativos, as escolas adequadas para seus filhos. Esse é o valor fundamental e a natureza jurídica que fundamenta a subvenção escolar. Portanto, nenhum setor educacional, nem sequer o próprio Estado, tem o privilégio e a exclusividade de escolher a escola dos mais pobres, sem com isso infringir importantes direitos. Deste modo, respeitam-se direitos naturais da pessoa humana, da convivência pacífica dos cidadãos e do progresso de todos.
6.4.6.2 As universidades e centros superiores de educação católica
341. Segundo sua própria natureza, a Universidade Católica presta uma importante ajuda à Igreja em sua missão evangelizadora. Trata-se de um vital testemunho de ordem institucional de Cristo e de sua mensagem, tão necessários e importantes para as culturas impregnadas pelo secularismo. As atividades fundamentais de uma universidade católica deverão se vincular e se harmonizar com a missão evangelizadora da Igreja. Essa missão se realiza através de uma pesquisa realizada à luz da mensagem cristã, que coloque os novos descobrimentos humanos a serviço das pessoas e da sociedade. Dessa forma oferece uma formação dada em um contexto de fé, que prepara pessoas capazes de um juízo racional e crítico, conscientes da dignidade transcendental da pessoa humana. Isto implica uma formação profissional que compreende os valores éticos e a dimensão de serviço às pessoas e à sociedade; o diálogo com a cultura, que favoreçe uma melhor compreensão e transmissão da fé; e a pesquisa teológica que ajuda a fé a se expressar em linguagem significativa para estes tempos. Porque é cada vez mais consciente de sua missão salvífica neste mundo, a Igreja quer sentir estes centros pertos de si mesma e deseja tê-los presentes e operantes na difusão da mensagem autêntica de Cristo197.
342. As universidades católicas, por conseguinte, terão que desenvolver com fidelidade sua especificidade cristã, visto que possuem responsabilidades evangélicas que instituições de outro tipo não estão obrigadas a realizar. Entre elas, encontra-se, sobretudo, o diálogo fé e razão, fé e cultura e a formação de professores, alunos e pessoal administrativo através da Doutrina Social e Moral da Igreja, para que sejam capazes de compromisso solidário com a dignidade humana, de serem solidários com a comunidade e de mostrar profeticamente a novidade que representa o cristianismo na vida das sociedades latino-americanas e caribenhas. Para isso, é indispensável que se cuide do perfil humano, acadêmico e cristão dos que são os principais responsáveis pela pesquisa e docência.
343.É necessária uma pastoral universitária que acompanhe a vida e o caminhar de todos os membros da comunidade universitária, promovendo um encontro pessoal e comprometido com Jesus Cristo e múltiplas iniciativas solidárias e missionárias. Também deve-se procurar uma presença próxima e dialogante com membros de outras universidades públicas e centros de estudo.
344. Nas últimas décadas na América Latina e no Caribe observamos o surgimento de diversos Institutos de Teologia e Pastoral, orientados para a formação e atualização de agentes de pastoral. Neste caminho, tem-se conseguido criar espaços de diálogo, discussão e busca de respostas adequadas aos enormes desafios enfrentados pela evangelização no Continente. Ao mesmo tempo, tem sido possível formar inumeráveis líderes a serviço das Igrejas locais.
345. Convidamos a se valorizar a rica reflexão pós-conciliar da Igreja presente na América Latina e no Caribe, assim como a reflexão filosófica, teológica e pastoral de nossas Igrejas e de seus centros de formação e pesquisa, a fim de fortalecer nossa própria identidade, desenvolver a criatividade pastoral e potencializar o nosso. É necessário fomentar o estudo e a pesquisa teológica e pastoral frente aos desafios da nova realidade social, plural, diferenciada e globalizada, procurando novas respostas que dêem sustentação à fé e à experiência do discipulado dos agentes de pastoral. Sugerimos também uma maior utilização dos serviços que oferecem os institutos de formação teológica pastoral existentes, promovendo o diálogo entre os mesmos e destinar mais recursos e esforços conjuntos na formação de leigos e leigas.
346. Esta V Conferência agradece o inestimável serviço que diversas instituições de educação católica prestam na promoção humana e na evangelização das novas gerações, como sua contribuição à cultura de nossos povos e apoio às dioceses, congregações religiosas e organizações de leigos católicos que mantêm escolas, universidades, institutos de educação superior e de capacitação não formal, a prosseguirem incansavelmente em sua abnegada e insubstituível missão apostólica.
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por
Documento de Aparecida - CELAM 2007
Fonte: comshalom.org/formacao
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