
Sentir-se excluído
"Coitadinho" é uma expressão
comum para falar de crianças. Levando a linguagem a
sério, vemos a criança como destituída,
pobre, infeliz, cujas dores os pais se vêem no dever
de compensar.
Recorrendo às minhas parcas informações,
não conheço outros países com a mesma
visão. "Poor little kid" ou "la pauvre"
são usados só quando há sofrimento. Não
é simplificação, eu atribuo a essa forma
de encarar a criança um certo jeito de elas serem aqui
entre nós.
Uma vez, em Aruba, pude distinguir rapidamente as famílias
da América Central ou do Sul e as de europeus ou americanos.
As crianças das primeiras famílias eram impacientes,
briguentas, reclamavam, teimavam e corriam pelo salão.
Será que o denominador comum seria a existência
da "babá"? Ela não é só
uma encarregada de cuidar da criança, representa a
possibilidade de o casal, apesar dos filhos, não ter
de mudar o seu estilo de vida.
É comum aqui uma criança chamar a mãe
num tom normal sem ser atendida. Se a mãe ainda não
atende, ela apela para o grito. Se a babá estiver presente,
cabe a ela distrair a criança.
Ensinar boas maneiras demanda esforço, tempo e paciência.
Não é no grito. Hábitos são instaurados
passo a passo. Acatar horários de dormir, por exemplo,
não é fácil. Adormecer é desligar-se
do mundo e, para muitas crianças, pode ser assustador.
É por isso que elas se apegam tanto a rituais. Histórias,
cantigas e orações não podem ser só
quando os pais têm tempo. Têm de ser sempre iguais,
para que a criança tenha certeza de que serão
iguais também quando acordar.
Quando um casal resolve ter filhos, deve saber que a vida
mudará, mesmo que tenha babá, enfermeira e avó
para ajudar. Uma criança muda muito a intimidade do
casal, mas ela não pode desaparecer. Se os pais defendem
demais o seu espaço, o filho se sentirá excluído
e passará às retaliações: excesso
de demanda.
Ser excluído gera uma sensação de aniquilação,
uma ameaça psíquica grave. Para uma criança,
chamar e não ser atendida soa como "será
que eu existo?". Para o adulto, não ser atendido
num pedido (hora de dormir, por exemplo) também traz
a sensação de inexistência.
O recurso mais comum para se fazer ouvir é falar mais
alto. Se a criança tem de lutar muito para se sentir
percebida, ela vai encontrar um jeito de chamar a atenção
para extinguir a sensação desagradável
provocada pela exclusão.
Cabe aos pais reverter o processo, mas isso não se
faz com complacência, e sim com uma presença
mais consciente. Todo mundo quer se sentir existindo. Ninguém
suporta o olho que não o enxerga nem o ouvido que não
o escuta.
Anna Verônica Mautner
Fonte: Folha de São Paulo, caderno
Equilíbrio (15, junho de 2006)
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