
A mulher tem a missão de santificar o mundo
Entrevista com Maria Emmir Oquendo Nogueira
Co-fundadora e formadora geral da Comunidade Shalom
Por Gigliola Sena e Maria Auristela
Shalom Maná: Você tem ministrado o curso “Mulheres,
minhas irmãs”, que tem sido bastante procurado.
Como nasceu a idéia desse curso e do que ele trata?
Emmir: O curso nasceu de muitas mulheres, minhas irmãs,
que me pediam orientação e me perguntavam o
que fazer nessa ou naquela situação das suas
vidas como mulheres. Comecei então um programa na rádio
Assunção falando sobre as mulheres da Bíblia.
Infelizmente, estou sem tempo de continuar esse programa;
mas é meu sonho – e acho que isso foi uma inspiração
de Nossa Senhora – aprofundar esse tema na rádio,
em artigos, talvez em livro, e fazer encontros no Brasil inteiro
sobre isso, para que as mulheres tenham consciência
do papel delas na Igreja, na família, na sociedade
e consigo mesmas, as mulheres que Deus criou.
Tudo isso começou depois da minha consagração
a Nossa Senhora. E eu sonho, e me coloco como instrumento
de Deus e de Maria, para que as mulheres possam se comportar,
se vestir, rezar, ser esposas, mães, celibatárias,
aquela pessoa na sociedade, na família e na Igreja
que Nossa Senhora seria e que Deus quer que ela seja. Então,
assim surgiu o curso, e ele é parte de algo muito maior,
eu creio, que Deus deseja fazer. E se não fizer através
de mim, vai fazer através de outra pessoa, segundo
a vontade dele.
Como você vê a importância e o papel da
mulher neste terceiro milênio?
O mundo foi consagrado a Nossa Senhora já na década
passada e João Paulo II renovou essa consagração
às portas do terceiro milênio. O papel da mulher
no terceiro milênio, especialmente no Brasil, é
um papel santificador. Por ser esposa do Espírito,
que é o santificador, a mulher tem de estar a serviço
da santificação do mundo; da santificação
das outras mulheres, dos homens, das crianças, dos
pobres, dos ricos, de todos.
A mulher, que entende o papel de Nossa Senhora de esposa
do Espírito, une-se a ela nesse desejo de colaborar
para a santificação do mundo, seja através
do sacrifício silencioso pessoal, ou em qualquer atividade,
seja através do socorro aos pobres, do seu trabalho,
na família, santificando o mundo pelo serviço.
Vejo que esse é o papel da mulher e, como eu disse,
especialmente no Brasil, onde o sensualismo tem deformado
tanto o rosto de Nossa Senhora no rosto de cada mulher.
Você acha que, nesse terceiro milênio, a mulher
vai invadir mais os meios seculares e estar mais à
frente em todas as áreas: social, política...?
Não sei. Não sei nem se é importante
estar à frente de alguma coisa. Sei que o importante
é ser santo. Esteja onde estiver, seja como for. O
importante é fazer a vontade de Deus, que sejamos santas
e cumpramos o projeto de Deus, e o seu projeto é a
santificação do mundo.
Na sua opinião, quais os maiores desafios que as mulheres
de hoje enfrentam?
Ser santa. Em qualquer época, em qualquer lugar, o
maior desafio, tanto para a mulher quanto para o homem é
a santidade. E vejo que é um desafio sobretudo para
a mulher, tão fortemente assediada pelo consumismo,
pelo sensualismo, por um romantismo mentiroso que não
leva ao amor.
O desafio de santidade é muito maior quando o mundo
inteiro faz exigências e leva a mulher a se centralizar
em si mesma.
Então, é preciso ter muito o coração
em Deus, os olhos em Jesus, para cumprir o maior desafio:
ser santo. E ser santo quando você tem uma família
estruturada, vive num ambiente saudável e harmonioso,
está numa situação que favorece a santidade,
é mais fácil. Mas eu diria que, no Brasil hoje,
estamos numa situação que desfavorece a santidade.
As pessoas, especialmente as mulheres, são levadas
a centralizar-se em si mesmas, por um lado, e por outro lado
a dispersar-se na superficialidade, nas futilidades, nas coisas
passageiras. Isso é um grande risco e dificulta a caminhada
para a santidade.
Nesse papel de santificadora, você poderia citar algumas
mulheres que poderiam nos iluminar?
Madre Teresa de Calcutá, claro, ninguém esperava
que eu dissesse outra coisa mesmo; Irmã Dulce e Ivete,
uma senhora de Uganda, que conheci em Roma. Ela sustentou
a família durante um massacre em Ruanda e hoje anda
pelo mundo inteiro pregando o evangelho do perdão.
Essas três mulheres marcaram minha vida, me impressionam
imensamente e, quando eu crescer, gostaria de ser como elas.
[risos].
Nas mulheres com quem você convive, quais as virtudes
que você mais admira?
A santidade, a humildade, o silêncio.
Já que enveredamos por sua vida pessoal, existe uma
curiosidade da qual não podemos fugir: como você
consegue conciliar seu apostolado de co-fundadora, formadora
geral da Obra Shalom, escritora... e seus empenhos familiares
de esposa e mãe?
Não preciso conciliar, porque essas coisas são
uma só. Todo mundo me faz essa pergunta e eu sempre
gosto de explicar isso. Não existe oposição:
meu apostolado de um lado, minha missão de outro, minha
família de outro, eu de outro. Não. Tudo isso
é uma coisa só, é o que eu sou.
Uma das coisas que Nossa Senhora me ajuda muito é
na administração do tempo. Meu tempo não
pertence a mim, mas a ela, a Deus. E quando tenho dificuldade,
porque num determinado dia tenho dez coisas para fazer e só
há tempo para cinco, então, peço a Nossa
Senhora que ela administre meu tempo para a glória
de Deus e cuide da minha agenda. É impressionante como
tudo se resolve. Dessas cinco atividades para as quais não
há tempo, ou a pessoa desiste, ou percebo que não
é necessária, ou pode ficar para outro dia.
E não existe conflito entre família e apostolado.
Uma das grandes descobertas na minha vida foi a de que tudo
é uma coisa só. Isso me trouxe muita paz interior
e unificação, porque tudo é missão,
é Jesus vivendo em mim.
Nosso problema de tempo, às vezes, é que começamos
a ser divididos interiormente, como se as coisas se opusessem,
e elas não se opõem quando tudo é de
Deus. Não existe uma divisão quando o dono é
um só.
O que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?
Gostei dessa palavra: “horas” de lazer, é
muito interessante [risos].
O que eu mais gosto de fazer nos meus momentos de descanso
é ler. Esse é o meu lazer predileto.
Depois disso, gosto de estar com minha família, de
almoçar com meus pais, com meus irmãos, com
meus filhos e marido, com a Comunidade, naquelas refeições
demoradas, nas quais conversamos muito. É uma coisa
que, infelizmente, o fast food está tirando de nós.
Conviver é um grande lazer.
Emmir, gostaria agora de voltar ao tema de Nossa Senhora.
No começo da entrevista você falava da consagração
a Maria segundo São Luís Grignion de Montfort,
da qual você é uma grande incentivadora. O que
a leva a isso?
A consagração a Nossa Senhora, segundo o método
de São Luís Grignion de Montfort, mudou minha
vida. E é isso que me leva a incentivar todas as pessoas
que eu posso a fazer essa consagração.
A segunda razão, não menos importante, foi que,
poucos dias antes de morrer, o Ronaldo me disse: “Encontrei
o caminho certo, reto, curto para chegar a Deus”. Pensei
que estivesse falando de Santa Teresinha, mas ele foi ao quarto
dele e buscou o livro da consagração total a
Nossa Senhora segundo São Luís Grignion de Montfort.
Era um livro que eu já conhecia, mas naquele momento
vi Deus, através do Ronaldo, indicando-me um caminho
que poderia me levar realmente à salvação.
Não sou uma pessoa naturalmente simples; devido a
características da personalidade, complico um pouco
as coisas, e essa consagração salvou-me de mim
mesma, das minhas manias, de centralizar tudo em mim, de pensar
que eu poderia ser ou fazer alguma coisa... e coloquei tudo
nas mãos de Nossa Senhora. Minha vida mudou completamente.
E vejo os frutos na minha vida pessoal, na minha vida familiar.
Por isso eu insisto e, se pudesse, escreveria uma revista
inteira sobre isso.
Para uma pessoa que ainda não descobriu Nossa Senhora,
o que você recomendaria?
Às vezes as pessoas são influenciadas por algumas
idéias erradas sobre Nossa Senhora, e eu tenho certeza
de que se a conhecessem melhor, a amariam bem mais.
Então, eu recomendaria que você fale com ela.
Se você precisa descobri-la, fale com ela como falaria
com sua mãe. E se você não conseguir,
reze a Ave-maria bem devagar, pedindo a Nossa Senhora a graça
de poder rezar com o coração, de poder estar
junto dela e descobri-la como mãe.
Descobrir Nossa Senhora é uma graça que devemos
pedir sempre a Jesus: “Ajude-me a descobrir sua mãe,
dê-me os sentimentos que você tem por ela”.
Isso vai ajudar você, porque é uma graça
imensa, e Deus, certamente, deseja dá-la a todas as
pessoas.
Estamos completando 20 anos de Obra Shalom. O que você
tem a dizer sobre Nossa Senhora nessa história?
Você quer começar outra entrevista, não
é? [risos]. Eu até sugiro que na Shalom Maná
haja um artigo sobre isso. Lembro que há alguns anos
escrevi um artigo sobre Nossa Senhora e a vocação
shalom, no qual eu falava da Rainha da Paz, Esposa do Espírito
e Porta do Céu.
Eu, realmente, nem tenho como falar. Porque Nossa Senhora
sempre esteve presente; presente do jeito dela. Mas, espero
que nós, da Obra Shalom, nunca percamos o amor por
Nossa Senhora, e também que possamos crescer e aprofundar
o conhecimento sobre ela, a espiritualidade mariana.
Nesses 20 anos Nossa Senhora foi para nós apoio, consolo,
direcionamento, caminho. Mas às vezes me dá
a impressão de que Jesus deseja que a conheçamos
melhor e amemos mais de maneira comunitária.
Gostaria de ressaltar a grande graça de Deus, quando,
por iniciativa dele mesmo, conhecemos Nossa Senhora como a
Porta do Céu e tem sido para nós um grande presente
e consolo de Deus conhecermos os ícones de Nossa Senhora;
os vários ícones que foram fazendo parte da
nossa espiritualidade, como a Mãe da Ternura, a Porta
do Céu e outros ícones que, graças a
Deus, nossos irmãos começam já a pintar,
expressando Nossa Senhora como ela se revela a nós,
no Shalom.
:::
Voltar para página de artigos
|