Limites, sim ou não
Educação Infantil
Antigamente, ninguém sequer discutia
o assunto.
Criança não sabia e, portanto, precisava aprender.
E nós, adultos, tínhamos de ensinar. De maneira
que, por exemplo, quando o menino fazia algo errado, respondia
mal à avó, agredia um coleginha ou não
queria fazer o “dever de casa” os pais não
tinham dúvidas – agiam, corrigiam, “davam
castigo” – muitos até batiam!!! (Lá
em casa, temos guardada uma aterrorizante e incrível
palmatória – que meu marido, um belo dia, conseguiu
com a ex-professora primária do meu sogro, para figurar
na sua coleção de antiguidades... com o caráter
especialíssimo de ter sido usada no avô dos meus
filhos, quem haveria de crer hoje?)
Com as mudanças ocorridas durante o século XX,
tanto no campo das relações humanas como no
da educação, as pessoas foram aprendendo a respeitar
as crianças, entendendo que elas têm, sim, querer
(há pouco mais de três décadas nossos
pais diziam com toda a segurança “criança
não tem querer”, quem não lembra?), gostos,
aptidões próprias e até indisposições
passageiras - exatamente como nós, adultos.
Com isso, sem dúvida, muita coisa melhorou para as
crianças – e, claro, para nós adultos
também. O relacionamento entre pais e filhos ganhou
mais autenticidade, menos autoritarismo. O poder absoluto
dos pais sobre os filhos foi substituído por uma relação
mais democrática. E o entendimento cresceu... Todos
ficaram felizes...
Será? Será que as coisas aconteceram assim de
forma tão harmoniosa, com todos?
Na verdade, não. Em muitos casos, surgiram problemas,
porque ocorreram uma série de enganos e distorções
em relação a essa nova forma de relacionamento
familiar.
E por quê? Será que essas novas teorias estavam,
afinal erradas? Em parte sim e em parte não. O problema
maior que ocorreu – e ainda vem ocorrendo – é
que muitos pais estão tendo sérias dificuldades
para colocar em prática essa nova forma de educar,
que é de fato muito mais difícil.
Como saber a hora de dizer sim e a hora de dizer não?
Aliás, perguntam-se, aflitos, muitos pais, há,
de acordo com essas novas teorias, realmente uma hora para
dizer não? Negar alguma coisa para os filhos parece
um crime, um verdadeiro pecado atualmente, ou, no mínimo,
um ato autoritário, um modelo antiquado de educar.
Afinal, tantas obras publicadas indicam tudo que não
se deve fazer e tão poucas oferecem realmente uma diretriz
para clarear o caminho de quem quer bem orientar os filhos...
Muitos papais e mamães ficam em sérias dificuldades
ao tentarem colocar em prática aquelas idéias
tão lindas que tinham em mente ao iniciarem o longo
e delicado caminho da formação das novas gerações:
“comigo vai ser tudo diferente; não vou ser igual
aos meus pais em nada...”, afirmam, convictos. Cheios
de boas intenções lá vão eles
e ... de repente, as coisas deixam de ser tão simples
e fáceis. Ao contrário. O dia-a-dia parece se
tornar muitos, mas muito complicado mesmo. Ai, meu Deus, o
que fazer?
Aquele relacionamento ideal, perfeito, em que a mamãe,
com todo o carinho (e com toda razão), explica (sem
nenhum autoritarismo e cheia de compreensão), que aquele
CD que o filhinho arranhou, tão inocentemente, tadinho
– não era para ser riscado... mas, mesmo com
toda conversa, com todo afeto demonstrado e outras tantas
racionais explicações, o CD foi arranhado, sim.
E não apenas um, mas vários! Explicado assim,
com tanto carinho e amor, deveria ter funcionado, afinal usou
toda a psicologia, não foi?... Então, o que
está acontecendo? Depois de falar, explicar, sorrir,
explicar de novo, acariciar, entender, compreender –
tudo, tudo, conforme mando o figurino da nova educação
– não é que parece que seu doce filhinho
não entende o diálogo? Pois, afinal, não
se foi para o lixo toda a ma-ra-vi-lho-sa coleção
de CDs do maridinho?... Como é que pode? E agora?
Onde foi que eu errei? Perguntam-se, desesperados, os pais.
Afinal, conversam, explicam, não agridem, não
impõem, não batem, não castigam... e,
no fim, a vida está virando um verdadeiro inferno.
Quanto mais fazem, mas os filhos querem que se faça,
já não sabem mais o que dizer, como agir, estão
desesperados! Um belo dia, percebem-se, admirados, a dizer
“no meu tempo não era assim”, aquela frase
odiável que ouviram tantas vezes e, agora, quem diria,
eles próprios a estão dizendo, e o que é
pior, resolveram “virar a mesa”, estão
castigando os filhos, berrando, se escabelando, irritados,
perdidos...
Parece o fim do mundo? Parece. Mas, felizmente, não
é.
Já dizia Aristóteles, um filósofo que
viveu muito tempo antes de Cristo, “a justiça
está no meio-termo”. Ou seja, o que ocorreu foi
que, no afã de atender aos reclamos da moderna pedagogia
e da psicologia, os pais perderam um pouquinho o rumo –
e, sem querer, exageraram na dose – quiseram tanto acertar
que, por vezes, erraram.
Mas, calma, nada que não tenha remédio! Algumas
regras básicas são suficientes para colocar
a casa em ordem e a vida em paz!...
E é exatamente o que vamos fazer aqui: explicar com
clareza e objetividade como ser um pai moderno – sem
perder a autoridade, sem deixar que os filhos cresçam
sem limites e sem capacidade de compreender e enxergar o outro
– habilidades básicas e essenciais para quem
deseja criar cidadãos, seres humanos capazes de praticar
o humanismo com a mesma naturalidade com que respiram!
Para possibilitar o surgimento desse ser humano maravilhoso
é necessário que os pais tenham certeza de uma
coisa: dar limites é importante. Não pode haver
dúvidas quanto a isso. Antes de começar é
preciso pensar – e decidir.
É fundamental acreditar que dar limites aos filhos
é iniciar o processo de compreensão e apreensão
do outro (atualmente muita gente acredita que o limite provoca
necessariamente um trauma psicológico e, em conseqüência,
acaba abrindo mão desse elemento fundamental na educação).
Ninguém pode respeitar seus semelhantes se não
aprender quais são os seu limites – e isso inclui
compreender que nem sempre se pode fazer tudo que se deseja
na vida. É necessário que a criança interiorize
a idéia de que poderá fazer muitas, milhares,
a maioria das coisas que deseja – mas nem tudo e nem
sempre. Essa diferença pode parecer sutil, mas é
fundamental. Entre satisfazer o próprio desejo e pensar
no direito do outro, muitos tendem a preferir satisfazer o
próprio desejo, ainda que, por vezes, prejudiquem alguém.
Porque, afinal, nem sempre o que se deseja é útil
e correto socialmente,querem ver?
– Pode morder e arrancar os cabelos do amiguinho só
porque ele pegou o seu brinquedo favorito? Não, é
claro.
– Pode dar vontade de entupir o vaso sanitário
da escola com papel higiênico? Não, não
pode.
– Pode dar vontade de jogar uma mesa do segundo andar
de um prédio, só para ver o que acontece com
o chão lá embaixo? Não, não pode.
– Pode dar vontade de pichar as paredes branquinhas
do prédio novo lá da praça? Não,
não pode não.
– Pode dar vontade de dirigir, depois de beber duas
doses de uísque? Não, não pode.
– Pode dar vontade de correr como o vento na nova bicicleta
de vinte marchas e nem ao menos reduzir um pouco, ao vislumbrar
uma velhinha atravessando a pista? Não, mas acontece...
e a cada dia mais...
– Pode dar vontade de pegar aquela lindinha e nova que
a amiga comprou e levar para você? Também não
pode não.
– Pode fingir que não percebeu que a conta do
restaurante veio totalizada a menos e não falar nada?
Não, não e não!
– Pode dar uma facada na namorada que o deixou por outro?
Jamais! Porém acontece!
– Pode dar vontade de jogar álcool no mendigo
e atear fogo, só de brincadeirinha? Não, não
pode.
Mas só vai responder “não,
não pode” quem desde pequenino tiver aprendido
que muitas coisas podem, e muitas outras não podem
e não devem ser feitas, mesmo que dêem muita
vontade ou prazer. E tudo bem. Somos felizes assim, respeitando
e tendo algumas regras básicas na vida. Especialmente
se aprendemos a amar o outro e não apenas a nós
próprios.
E, nós, os pais, queremos muito ver nosso filhos crescendo
no rumo da felicidade, não queremos? Então temos
de ajudá-los nisso. Porque ninguém, ao vir ao
mundo, sabe o que é certo e o que é errado.
O ser humano, ao nascer, não tem ainda uma ética
definida. E somos nós, especialmente nós, os
pais, que temos esta tarefa fundamental e espetacular –
passar pra as novas gerações esses conceitos
tão importantes e que conferem ao homem sua humanidade.
Então, se estamos todos de acordo, mãos à
obra! Vai valer a pena!
Texto extraído do livro “Limites
sem trauma” –
Tânia Zagury – Editora Record
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