Desenvolvendo a capacidade de aprender
Vicente Martins
São três os fatores que influem no desenvolvimento
da capacidade de aprender: primeiramente, a atitude de querer
aprender. É preciso que a escola desenvolva, no aluno,
o aprendizado dos verbos querer e aprender, de modo a motivá-los
para conjugá-los assim: eu quero aprender. Tal comportamento
exigirá do aluno, de logo, uma série de atitudes
como interesse, motivação, atenção,
compreensão, participação e expectativa
de aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser pessoa.
O segundo fator diz respeito às competências
e habilidades, no que poderíamos chamar, simplesmente,
de desenvolvimento de aptidões cognitivas e procedimentais.
Quem aprende a ser competente desenvolve um interesse especial
de aprender. No entanto, só desenvolvemos a capacidade
de aprender quando aprendemos a pensar. Só pensamos
bem quando aprendemos métodos e técnicas de
estudo. É esse fator que garante, pois, a capacidade
de auto-aprendizagem do aluno.
O terceiro fator refere-se à aprendizagem
de conhecimentos ou conteúdos. Para tanto, a construção
de um currículo escolar, com disciplinas atualizadas
e bem planificadas, é fundamental para que o aluno
desenvolva sua compreensão dos ambientes natural e
social, do sistema político, da tecnologia, das artes
e dos valores em que se fundamenta a sociedade, conforme o
que determina o art. 32 da LDB.
Uma pergunta, agora, advém: saber
ensinar é tão importante quanto saber aprender?
Responderei assim: há um ditado, no meio escolar, que
diz: “Quem sabe ensina”. Muitos sabem conhecimentos,
mas poucos ensinam a aprender. Ensinar a aprender é
ensinar estratégias de aprendizagem. Na escola tradicional,
o P, maiúsculo, significa Professor-representante do
Conhecimento; o C, maiúsculo, significa Conhecimento
acumulado historicamente na memória social e na memória
do professor; e o a, minúsculo, significa o aluno,
que, a rigor, para o professor e para a própria escola,
é tábula rasa, isto é, conhece pouco
ou não sabe de nada. Isso não é verdade.
Saber ensinar é oferecer condições para
que o discípulo supere, inclusive, o mestre. Numa palavra:
ensinar é fazer aprender a aprender, de modo que o
modelo pedagógico desenvolva os processos de pensamento
para construir o conhecimento, que não é exclusividade
de quem ensina ou aprende.
É papel dos professores levar o aluno
a aprender para conhecer, o que pode ser traduzido por aprender
a aprender, em que o aluno é capaz de exercitar a atenção,
a memória e o pensamento autônomo.
As maiores dificuldades dos docentes residem
nas deficiências próprias do processo de formação
acadêmica. Nas universidades brasileiras, os cursos
de formação de professores (as chamadas licenciaturas)
se concentram muito nos conteúdos que vêm de
ciências duras, mas se descuidam das competências
e habilidades que deve ter o futuro professor, em particular,
o domínio de estratégias que permitam a ele
se comportar de modo eficiente, autônomo e estratégico.
Os docentes enfrentam dificuldades de ensinar
a aprender, isto é, desconhecem, muitas vezes, como
os alunos podem aprender e quais os processos que devem realizar
para que seus alunos adquiram, desenvolvam e processem as
informações ensinadas e apreendidas em sala
de aula. Nesse sentido, o trabalho com conceitos como aprendizagem,
memória sensorial, memória de curto prazo, memória
de longo prazo, estratégias cognitivas, quando não
bem assimilados, no processo de formação dos
docentes, serão convertidos em dores de cabeça
constantes, quando o docente ensina, mas não tem a
garantia de que está, realmente, ensinando a aprender.
A noção de memória é central para
quem ensina a aprender.
As maiores dificuldades dos alunos residem
no aprendizado de estratégias de aprendizagem. A leitura,
a escrita e a matemática são meios ou estratégias
para o desenvolvimento da capacidade de aprender. Entre as
três, certamente, a leitura, especialmente a compreensão
leitora, tem o seu lugar de destaque. Ler para aprender é
fundamental para qualquer componente pedagógico do
currículo escolar. Através dessa habilidade,
a leitura envolve a atividade de ler para compreender, exigindo
que o aluno, por seu turno, aprenda a concentrar-se na seleção
de informações relevantes no texto, utilizando,
para tanto, estratégias de aprendizagem e avaliação
de eficácia.
Aprender, pois, a selecionar informação
é uma tarefa pedagógica de quem ensina e um
desafio cognitivo para quem aprende. A escola e a família
são instituições ainda muito conservadoras.
Nisso, por um lado, não há demérito,
mas às vezes também não há mérito.
No Brasil, muitas escolas utilizam procedimentos do século
XVI, do período jesuítico, como a cópia
e o ditado. Nada contra os dois procedimentos, mas sem que
tenham uma fundamentação pedagógica e
que valorizem a escrita criativa do aluno, decerto terão
pouca repercussão no seu aprendizado.
Muitas escolas, por pressões familiares,
não discutem temas como sexualidade, especialmente
a vertente homossexual. Sexualidade é tabu no meio
familiar e no meio escolar, mesmo numa sociedade que enfrenta
uma síndrome grave como a Aids. A escola ensina, como
paradigma da língua-padrão, regras gramaticais
com exemplário de citações do século
XIX e não aceita a variação lingüística
de origem popular, que traz marcas do padrão oral e
não-escrito. E assim por diante. São exemplos
de que a escola é realmente conservadora.
Isso acontece também com as pedagogias.
Tivemos a pedagogia tradicional, a escolanovista, a piagetiana,
a vigostkyana e já falamos em uma pedagógica
pós-construtivista com base na teoria de Gardner. Umas
cuidam plenamente de um aspecto do aprendizado como o conhecimento,
mas se descuidam completamente da capacidade cognitiva e metacognitiva,
dos interesses e das necessidades dos alunos.
Na história educacional, no Brasil,
os dados mostram que quanto mais teoria educacional mirabolante,
menos conhecemos o processo ensino–aprendizagem e mais
tendemos, também, a reforçar um distanciamento
professor–aluno, porque as pedagogias tendem a reduzir
ações e espaços de um lado ou do outro.
Ora o professor é sujeito do processo pedagógico,
ora o aluno é o sujeito aprendente. O desafio, para
todos nós, é o equilíbrio que vem da
conjugação dos pilares do processo de ensino–aprendizagem:
mediação, avaliação e qualidade
educacional.
Seja como for, o importante é que
os docentes tenham conhecimento dessas pedagogias e possam
criar modelos alternativos para que haja a possibilidade de
o aluno aprender a aprender, ou seja, ser capaz de descobrir
e aprender, por ele mesmo ou em colaboração
com outros, os procedimentos, os conhecimentos e as atitudes
que atendam às novas exigências da sociedade
do conhecimento.
A Constituição Federal, no
seu art. 205, e a LDB, no seu art. 2o, preceituam que a educação
é dever da família e do Estado. Em diferentes
momentos, a família é convocada, pelo poder
público, a participar do processo de formação
escolar: no primeiro instante, matriculando, obrigatoriamente,
seu filho em idade escolar no Ensino Fundamental. No segundo
instante, zelando pela freqüência à escola,
e, num terceiro momento, articulando-se com ela, de modo a
assegurar meios para a recuperação dos alunos
de menor rendimento, zelando, com os docentes, pela aprendizagem
dos alunos.
O papel da família no desenvolvimento
da capacidade de aprender é tarefa de natureza legal
ou jurídica e deve ser, pois, o de articular-se com
a escola e seus docentes, velando, de forma permanente, pela
qualidade de ensino.
O papel da família é de zelar,
a exemplo dos docentes, pela aprendizagem. Isso significa
acompanhar de perto a elaboração da proposta
pedagógica da escola, não abrindo mão
de prover meios para a recuperação dos alunos
de menor rendimento ou em atraso escolar, bem como assegurar
meios de acesso aos níveis mais elevados de ensino,
segundo a capacidade de cada um.
As mídias convencionais ou eletrônicas
apontam para uma revolução pós-industrial
centrada no conhecimento. Estamos na chamada sociedade do
conhecimento, em que um aprendiz dedicado à pesquisa
pode, em pouco tempo, superar os conhecimentos acumulados
do mestre. E tudo isso é bom para quem ensina e para
quem aprende.
O conhecimento é possível de
ser democraticamente capturado ou adquirido por todos: todos
estão em condições de aprendizagem. Claro,
a figura do professor não desaparece, exceto o modelo
tradicional, do tipo sabe-tudo, mas passa a exercer um papel
de mediador ou instrutor ou mesmo um facilitador na aquisição
e no desenvolvimento da aprendizagem.
A tarefa do mediador deve ser, então,
a de buscar orientar, diante das diversas fontes disponíveis,
especialmente as eletrônicas, os melhores sites, indicando
links que realmente trazem a informação segura.
Infelizmente, por uma série de fatores
de ordem socioeconômica, muitos docentes não
acessam a Internet e, o mais grave, já sofrem a conseqüência
dessa limitação, levando, para a sala de aula,
informações desatualizadas e desnecessárias
para os alunos, especialmente em disciplinas como História,
Biologia, Geografia e Língua Portuguesa.
Fonte: www.construirnoticias.com.br
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